As câmeras de segurança do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), registraram o momento em que um auditor fiscal permite que o piloto de um jato particular passe com sete volumes sem fiscalização. As imagens foram analisadas pela Polícia Federal (PF), que concluiu que não é possível identificar o conteúdo das bagagens e nem a quem elas pertencem.
O voo PP-OIG saiu da ilha de Saint Martin, no Caribe, em 20 de abril do ano passado, e entre os passageiros estavam o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira. As imagens do aeroporto foram anexadas ao inquérito da Polícia Federal.
O procedimento seguiu o padrão do aeroporto, com cerca de 20 passageiros que colocaram suas bagagens no raio-x. O piloto José Jorge de Oliveira Júnior aparece levando dois volumes, que são fiscalizados normalmente.
Pouco depois, sete volumes diferentes aparecem, sendo sacolas, caixa de papel, um edredom, uma mala de viagem, outra caixa e uma mochila. A mala e a mochila já haviam passado pelo raio-x, mas o restante não.
Após a passagem dos volumes, a operadora de raio-x questionou o auditor fiscal responsável. As imagens mostram que ele fez gestos que expressam “banalidade e irrelevância”, segundo o relatório da PF.
O procedimento irregular foi exclusivo do voo PP-OIG, segundo a PF. Nos demais voos, fiscalizados pelo mesmo auditor na mesma noite, todas as bagagens passaram normalmente pelo raio-x. Ele também usou o celular com frequência apenas durante este voo.
O piloto informou que não se recorda do ocorrido e que segue procedimentos padrão. O auditor fiscal não se manifestou sobre o caso.
Motta afirmou, por meio de nota, que “cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira” e aguardará a manifestação da Procuradoria Geral da República (PGR). Os demais parlamentares foram procurados pela reportagem, mas ainda não se manifestaram.
Entenda o caso
A Polícia Federal abriu um inquérito para apurar suspeitas de descaminho ou contrabando em um voo realizado em uma aeronave particular de um empresário investigado na CPI das Bets do Senado.
Esse inquérito, entretanto, foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) depois que a PF constatou que quatro parlamentares acompanharam o empresário no voo: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal Folha de S.Paulo. O Estadão teve acesso ao relatório da PF produzido na investigação. A aeronave pertence ao empresário Fernando Oliveira Lima, que é sócio de uma empresa de apostas online. Ele é conhecido como “Fernandin OIG”, sigla de sua empresa. Segundo a PF, o grupo representa as plataformas 7Games, Betão e R7.BET. Ele estava presente no voo com os parlamentares, que ocorreu em abril de 2025, período em que a CPI das Bets estava ativa no Senado, com a participação de Ciro Nogueira.
Procurado, o empresário afirmou que a bagagem transportada pertencia ao comandante do voo. “Recebi a notícia e a imagem e liguei para o comandante Jorge, o mesmo falou que se trata de itens pessoais dele e que o desembarque seguiu todo o processo normal”, disse.
As suspeitas da PF surgiram a partir de uma investigação sobre a corrupção de um auditor fiscal, Marco Canella, indiciado em um outro inquérito por facilitação de contrabando ou descaminho.
O inquérito chegou nesta semana ao STF e foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Ele enviou o caso para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR), que deve opinar se há indícios de crimes para que os fatos sejam investigados perante o Supremo.




