Teresina • terça-feira, 9 de junho de 2026
Cultura

A história do povo retratada na pintura de J Batista

Por Redação 5 de maio de 2022 4 min de leitura

J Batista é da minha geração. Quando criança, uma vez ele me propôs trocar uma revista de Tarzan por um caminhãozinho artesanal de madeira e eu quase não acreditei que ele falava a verdade. Tempos depois, quando vi que nem ele, nem eu estávamos arrependidos daquele escambo, revelou-me que a revistinha da EBAL – Editora Brasil-América Limitada – servia para ele treinar seus desenhos. E pelo jeito, treinou muito e treinou bem. E eu adorava brincar com o caminhãozinho artesanal.

Para uma pretensa futura biografia desse artista que estou começando a escrevinhar, me confidenciou ele que o fato de padre Lotar Weber (alemão, já falecido, que veio morar em Pedro II ainda na década de 1960) tê-lo convidado para pintar murais com motivos religiosos em todas as capelas do município de Pedro II (antes do desmembramento em outros três municípios), isso foi fundamental para o então jovem J Batista ganhar experiência e confiança em sua profissão. Já tarimbado, faria muitos outros painéis em igrejinhas e igrejas famosas Piauí afora e suas telas estão espalhadas por praticamente todos os estados da federação.

Em 2016, durante a edição do Festival de Inverno daquele ano, recebi um telefonema do professor Cineas Santos me pedindo para acertar uma entrevista com J Batista no ateliê deste, que seria exibida no programa que o renomado professor apresenta num canal de TV em Teresina. A entrevista foi realizada, e depois a conversa entre nós três correu solto regada a café e bolo de goma. Antes da pandemia, J Batista foi muitas vezes à Europa, sobretudo à Itália e Alemanha, expor seus trabalhos solicitado por entidades filantrópicas daqueles países.

Eu diria que a pintura de J Batista é a tradução pictórica de uma maneira toda particular daquilo que chamo de ‘pedrossegundidade’ isto é, um modo de ser e de estar no mundo todo próprio dos que nascemos no município piauiense de Pedro II. O traço das personagens de J Batista, como ele mesmo admite, veio das figuras do artista plástico piauiense Nonato Oliveira. Mas hoje apenas remotamente tal semelhança se daria. Há tempos que a pintura batistana anda com musculatura própria. E que musculatura.

Seus personagens, geralmente são pessoas do povo. O pequeno agricultor, a criança, a dona de casa, o garimpeiro, a moça sonhadora e brejeira, o rapaz trabalhador, a idosa religiosa, a redeira, o botador d’água, o pedinte, o bêbado, dentre outros tipos. Estão vestidas com roupas simples, de cores quase sempre primárias. As pinceladas do artista, propositadamente, dispensam o detalhismo abismal em detrimento de conjuntos de figuras humanas harmônicas distribuídas no espaço da tela, disputando o olhar do expectador. As telas de J Batista convidam nosso olhar para um passeio ao mesmo tempo espacial (sincrônico) e temporal (diacrônico). Elas nos contam histórias.

A pintura desse artista, quando à temática se reporta em sua maioria ao nordeste brasileiro, ao Piauí (e neste, ao município de Pedro II). Retrata a história do povo pobre, dos homens, mulheres, crianças e mesmo dos animais (o boi, o jumento, a cabra, o passarinho) habitando um espaço preenchido por cactos, estradas de terra, caatinga, casinhas ao léu, morros recônditos, riachos sonolentos, céus azulados de nuvens escassas e fugidias. Só depois de mirar bem esses detalhes que se sobressaem de imediato num primeiro olhar, é que o(a) observador(a) mais atento(a), em mergulhando na alma das pessoas ali retratadas, poderá captar os dramas, os sonhos, a labuta no trabalho, a fé, a sede por justiça, como também a esperança dessa gente. Essa gente somos nós mesmos.

Ernâni Getirana é professor, poeta e escritor. É autor, dentre outros livros

Below Media