Antigamente a Semana Santa era assim: quinta e a sexta-feira santa eram datas guardadas, como se dizia. Ninguém andava perambulando pelas ruas, nem falando alto, nem bebendo, nem dizendo palavras indecentes.
Havia mesmo pessoas que, sequer, tomavam banho nesses dois dias santos dentro da semana (ela mesma santa) que era para não ficarem despidas e, assim, agravar ao Criador.
Até quarta-feira, podia-se comer peixe, queijo, além de milho, feijão e arroz. O povo mais rico, da alta sociedade, tomava vinho e comia salmão e camarão. Os remediados, bacalhau. A gentalhada, sardinha em lata, e olhe lá!
A ricaçada bebia vinho importado. Os remediados, licores e vinho barato. Os pobrezinhos, uma cachacinha disfarçada.
Todos rezavam pais-nossos, ave Marias e santas Marias até não poder mais. Afinal, queriam merecer um pedacinho no céu quando passassem desta para uma melhor.
Sábado de aleluia, porém, a vida voltava ao normal. Os padres a brigar com o povo nas missas. As velhas fuxiqueiras a descontarem os dias parados. Os comerciantes a aumentarem o preço das mercadorias. Os meninos a prenderem bombinhas nos rabos dos vira-latas. Os homens a beber cachaça, as mães de famílias a falarem mal das filhas dos outros, embuchadas. E sabe mais Deus do céu o quê.
E por falar em Deus, Ele ficava lá em cima, entre as nuvens branquinhas olhando cá para baixo com a santa mão no queixo e balançando a cabeça desesperançoso com suas ovelhas. Mas isso era antigamente.
ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Em breve estará lançando seu mais recente livro: “Morro do Gritador, filho da Ibiapaba: brisa, cruviana & terremotos”.




