De um modo geral Edmundo Dourado tivera uma infância feliz. Era de fazer inveja aos meninos das cidades por onde o circo de seus pais passava. Sua mãe era uma mulher muito culta, costumava estar sempre com um livro nas mãos nos momentos livres, marcado com um marcador página que ela mesma confeccionava, pois era também exímia artesã das linhas, pontos e pespontos. Ela se contentava em ser reconhecida como uma boa atriz e costureira. Era ela quem cosia as roupas do elenco todinho. Possuía uma dessas maquininhas portáteis de costura, Crosley, da qual cuidava como a um filho. E também eram quem escrevias as peças de teatro da companhia em parceria com o marido.
Carmem ensinou seu filho a ler e a gostar de ler. Aos doze anos já escrevia suas pecinhas que encenava com os irmãos e os outros meninos do circo.Até o dia em que assistira numa matinê a um filme com Charlie Chaplim. Dali em diante quem foi que disse que Edmundo Dourado queria ser outra coisas senão um palhaço. Um p-a-l-h-a-ç-o? Perguntou-lhe o pai e ele balançou a cabeça dizendo que sim.
Coisa de menino, pensou o pai. Ano passado queria ser trapezista. Ano retrasado queria ser domador de leões. Coisa de menino. Mas não. Pediu que a mãe lhe fizesse uma roupa de palhaço e começou a imitar o Carlitos nas peças da companhia de artes cênicas do circo. Claro que as tais peças eram escritas por ele mesmo. Como o público passou a gostar daquelas pequenas inserções do ‘palhacinho’ entre uma atração e outra do povo grande, a companhia decidiu abrir-lhe espaço no qual o menino apresentava pequenos esquetes.
. (Ilustração: Ernani Getirana)
ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É autor de “Lendas de Pedro II”, dentre outros livros. Escreve às quintas-feiras para o portal News Piauí.




