Teresina • terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Abdon Rodrigues da Silva: uma vida de trabalho e serviço a Bertolínia

Por Redação 29 de setembro de 2026 6 min de leitura
Abdon Rodrigues da Silva - Foto: Reprodução

Neste 29 de setembro de 2026, Abdon Rodrigues da Silva completa 88 anos. Serventuário da Justiça aposentado, produtor rural e antigo presidente do Sindicato Rural de Bertolínia, construiu sua trajetória pelo trabalho e pelo serviço à comunidade em que escolheu viver.

Nasceu em 29 de setembro de 1938, no lugar Sobrado, então pertencente ao termo de Canto do Buriti. Era filho de Joaquim José Mariano Rodrigues da Silva Brasil, professor, topógrafo, agricultor e poeta baiano, e de Antônia Maria da Conceição Marreiros de Santana, integrantes de antigas famílias sertanejas. Ainda menino, acompanhou a família em sua mudança para o vale do rio Gurgueia. O pai ensinava particularmente, contratado por fazendeiros para alfabetizar as crianças de cada localidade; concluído o trabalho, seguia em busca de novas turmas. Foi assim que a família viveu em diferentes lugares da região, até se estabelecer no Riacho d’Areia, termo da antiga vila d’Aparecida, hoje cidade de Bertolínia.

Abdon começou a estudar na escola pública do Tapuio, com a professora Luisinha Rocha. Para chegar às aulas, percorria uma légua desde o Riacho d’Areia. Quando a professora se casou com o fazendeiro João da Cruz Duarte e transferiu a escola para perto de sua casa, o menino pôde concluir ali o ensino primário. Mais tarde, frequentaria também, por algum tempo, o Projeto Minerva.

Perdeu o pai aos oito anos. Para aliviar os encargos da mãe, passou a morar com a família do fazendeiro Luís Mariano, ali mesmo no Riacho d’Areia, onde foi acolhido como um dos seus. Já moço, decidiu aprender um ofício. Mudou-se em 1955 para Bertolínia e entrou na oficina do alfaiate Antônio Pires, conhecido por Tutu, com quem aprendeu a confeccionar roupas.

Em agosto de 1958, partiu em direção ao Planalto Central. Antes de alcançar Brasília, trabalhou por cerca de dois meses na construção dos pilares da ponte do Estreito, sobre o rio Tocantins. A viagem prosseguiu graças à ajuda mútua entre conterrâneos: os que ficavam contribuíam para a passagem dos primeiros; uma vez em Brasília, estes enviavam recursos para que os demais também pudessem seguir. Assim, todos chegaram à nova capital. Ali, Abdon integrou-se à multidão de trabalhadores que a erguia. Trabalhou inicialmente como servente de pedreiro e, depois, exerceu a alfaiataria por cinco anos.

Voltou a Bertolínia em 1963 para rever a família e participar dos festejos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Nessa visita, conheceu Eunice Miranda, filha de Dermeval Mendes da Rocha e Maria Martins de Miranda Rocha, esta parenta de sua genitora. Casaram-se em 18 de agosto daquele ano e passaram a morar, de início, numa casa da então Praça da Bandeira, hoje Praça Dom Augusto, recebida em dote pela esposa. Abdon abriu sua alfaiataria na cidade, ao mesmo tempo que trabalhava na lavoura e auxiliava os sogros na administração de uma fazenda. Em 1967, construiu sua residência na antiga Rua das Flores, hoje Rua Emiliano Falcão, onde ainda vive.

Também prestou serviços à SUCAM e, em 1968, à empresa RADIOTEPI, durante a construção da rodovia que ligaria Bertolínia a Manoel Emídio e Eliseu Martins. Em 1971, mudou-se por breve período para São Paulo, onde voltou a trabalhar como alfaiate no bairro do Brás. Três meses depois, retornou a Bertolínia para assumir o cargo de oficial de justiça, após aprovação em concurso público de provas e títulos. Serviu à comarca por quase quarenta anos, exercendo ainda as funções de distribuidor, contador e partidor, até se aposentar. Eram tempos difíceis em que fazia diligências em lombos de animais até os confins do Taquari, então pertencente ao termo judiciário de Manoel Emídio, hoje de Alvorada do Gurgueia.

A atividade rural permaneceu presente em sua vida. À frente da fazenda Dermária e de seu retiro Xixá, sucedeu os sogros na administração da propriedade e na criação de gado curraleiro pé-duro, caprinos, ovinos e suínos. Em 1979, com financiamento do Banco do Nordeste, adquiriu dez matrizes e um reprodutor nelore e iniciou a criação comercial dessa raça, figurando entre seus pioneiros na região.

Foi no Sindicato Rural de Bertolínia que sua experiência no campo ganhou maior dimensão coletiva. Fundador da entidade, presidiu-a por largos anos, desde o final da década de 1970 até o início dos anos 2000. Sua gestão procurou levar formação prática aos moradores da zona rural, por meio de parcerias com o SENAR-PI, associações comunitárias, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Prefeitura de Bertolínia, órgãos municipais e estaduais de agricultura e outras instituições locais. O trabalho alcançava também a área que viria a constituir o município de Sebastião Leal, então vinculada ao sindicato bertoliniense.

Um relatório da entidade, datado de novembro de 2002, registra, entre as atividades daquele período, 58 cursos de qualificação, com cerca de 900 participantes. As formações abrangiam, entre outros assuntos, bovinocultura, apicultura, caprinovinocultura, horticultura, operação de tratores, fabricação de queijo, aproveitamento de frutas e artesanato de palha. O mesmo documento registra nove postos de alfabetização de jovens e adultos, frequentados por cerca de 200 pessoas. São exemplos do alcance de uma atuação continuada, voltada a oferecer conhecimentos úteis ao trabalho e à vida no campo.

Abdon integrou ainda o conselho fiscal da Federação da Agricultura no Estado do Piauí, ao lado de seu amigo Carlos Augusto Carneiro da Cunha, o Caú. Na comarca, na fazenda e no sindicato, desempenhou tarefas distintas com o mesmo sentido de responsabilidade para com Bertolínia e sua gente.

Ao completar 88 anos, recebe o reconhecimento por uma vida feita de trabalho honesto, perseverança e serviço à comunidade. Sua história guarda a lembrança do menino que caminhava uma légua para estudar, do jovem que ajudou a construir Brasília e do homem que voltou à sua terra para nela formar família, exercer seu ofício e abrir oportunidades a outros trabalhadores do campo.

 

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