Um relatório da Polícia Federal (PF) indica que o empresário e ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, manteve trocas de mensagens com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, para consultá-lo sobre o risco de ser preso e avaliar a necessidade de deixar o Brasil.
Os diálogos teriam ocorrido em novembro de 2025, às vésperas de operação policial que prendeu o então banqueiro. As informações foram publicadas pelo jornal Estadão.
De acordo com o material analisado pelos investigadores, Vorcaro demonstrou apreensão com o andamento das apurações no âmbito da Operação Compliance Zero. Em uma das mensagens enviadas, no dia 15 de novembro, o banqueiro teria perguntado diretamente ao magistrado: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
A apreensão continuou nos dias seguintes. Em 16 de novembro, o empresário teria voltado a questionar Moraes sobre a iminência de mandados judiciais: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. A ordem de prisão preventiva acabou sendo emitida pela 10ª Vara Federal do Distrito Federal em 17 de novembro.
Consultas de Vorcaro a Alexandre de Moraes e tensão no STF
Segundo a publicação do jornal, o relatório pericial expõe a cronologia do contato entre o banqueiro e o ministro antes de operação da PF, a atuação da Justiça Federal e a disputa de bastidores no Supremo.
A troca de informações sigilosas entre o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro do STF Alexandre de Moraes teve início em 4 de novembro de 2025, intensificando-se à medida que a primeira fase da Operação Compliance Zero se aproximava.
Nas conversas, Vorcaro manifestou apreensão contínua com possíveis medidas judiciais:
- Em 4 de novembro, o banqueiro questionou o impacto das ações: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”.
- Na sequência, ele indagou sobre a existência de ordens já concedidas: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”.
- Demonstrando receio com decisões cautelares que pudessem comprometer seus negócios, registrou: “Conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo. Essa minha maior preocupação”.
O empresário também teria feito pedidos repetidos para que houvesse intervenção junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, na tentativa de atrasar ou travar as investigações de fraudes financeiras.
Prisão no aeroporto
A ordem de prisão preventiva de Vorcario foi assinada às 15h29 de 17 de novembro de 2025 pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, titular da 10ª Vara Federal do Distrito Federal.
No mesmo dia, Vorcaro teria tentado obter informações antes de ser interceptado: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreveu.
Horas depois, ele foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta e Dubai, onde tentava fechar a venda do Banco Master. A PF concluiu que a viagem se tratava de uma tentativa de fuga.
Após ser solto temporariamente em 29 de novembro de 2025 por decisão judicial, Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março.
Subida do caso ao STF e troca de relatoria
A investigação deixou a primeira instância da Justiça Federal e chegou ao STF em dezembro de 2025 por determinação do ministro Dias Toffoli. A mudança de foro ocorreu após surgirem evidências de transações imobiliárias envolvendo Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), detentor de foro privilegiado.
Posteriormente, Toffoli deixou a relatoria da apuração, e o processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.
Guerra interna no STF e desdobramentos
Sob a relatoria do ministro André Mendonça, a investigação assumiu novos contornos:
- Mendonça concedeu um prazo de 72 horas para que a Polícia Federal elabore um relatório detalhado sobre as menções feitas a autoridades como o ministro Alexandre de Moraes, o PGR Paulo Gonet e o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues.
- O caso desencadeou um cenário de forte tensão e guerra interna no STF.
- Também surgiram citações a apurações envolvendo um contrato de R$ 131 milhões ligado ao escritório de advocacia da esposa de Moraes com Vorcaro.
A defesa de Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes ainda não emitiram declarações sobre o conteúdo das conversas.
Desdobramentos no STF
Apesar das tentativas de bloqueio, a Operação Compliance Zero seguiu em curso. Após a prisão realizada em novembro de 2025, Vorcaro chegou a ser libertado temporariamente por decisão da Justiça Federal, mas foi detido novamente em março do ano seguinte.
Com o surgimento de menções a autoridades com prerrogativa de foro privilegiado no Congresso Nacional, o inquérito deixou a primeira instância e passou a tramitar no STF.




