Estava feita a aposta. Não dava para voltar atrás. Palavra era palavra e ele tinha que cumprir. Naquela noite ele custou a pegar no sono ali no fundo da rede, na escuridão. Sim, na escuridão, porque ele ao contrário dos demais moradores daquela casa, ele gostava era de dormir no escuro. Bando de medrosos, não estou dizendo mesmo. Se pelam de medo de qualquer coisa. Qualquer baratinha, qualquer barulinho e o povo daqui se mija todo. Ora mais.
Mas antes de fechar os olhos naquela noite Manelito, como poucas vezes na sua vida, estava preocupado com a promessa que fizera para os meninos ali das imediações.
Era um lado dele que ele mesmo não gostava. Estava sempre entrando numa enrascada. Mas não como aquela. Meu Deus. E agora? Era o jeito. Havia prometido a todos num rompante e, agora, não tinha como fugir do prometido. Agora não tinha mais jeito. Caiu no sono quando os olhos quase rasgam de tão secos.
No dia marcado, na hora marcada estava ele lá ovacionado pela pirralhada. A história de que Manelito iria desafiar os bois brabos da matança correu mundo, mas só entre os grupos de meninos. Era preciso cuidado pra o assunto não vazar para os adultos. Eles nunca iriam deixar Manelito fazer aquilo se soubessem.
ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor, Autor de vários livros, dentre eles um sobre o Morro do Gritador. Escreve às quintas para este portal.




