Teresina • quinta-feira, 23 de julho de 2026
Cultura

Realidade plástica

Por Redação 23 de julho de 2026 2 min de leitura

Sacos de plástico ao vento
Homens de plástico confusos, transparentes
No lugar do coração o logotipo de alguma multinacional
(fantasia de carnaval?)
No!

Homens de plástico desenhando no espaço
Etapas de um lento m.o.v.i.m.e.n.t.o.
Que parece não ter fim.
Sacos e homens patéticos
E o vento apocalíptico soooprando.

Vento morno des(em)pregando ex-homens metais
Homo-faber que mora no ABC e mal sabe ler.

Impasse, grave greve decretada. Paralização geral.
À mesa, feito água e azeite trocam palavras de bolha de sabão (irredutíveis patrões)
Fortes desejos expostos de importância CAPITAL.

Lá fora sacos de plástico vazios
Vazios os estômagos dos filhos de Adão.

Homens de plástico esmagados ao chão.
Seus filhos famintos entulhados em barracos.

Pares de olhos que desde cedo
Começam a ver um mundo imundo

Bocas fechadas ao protesto e à comida
Corpos esqueléticos, tentativas de vida
Em meio a um voo suicida
Involuntários kamikazes brasileiros.

Levados pelas correntes de vento
Esboços de homens
Desfilam em c.â.m.e.r.a   l.e.n.t.a
Numa melancólica agonia.

(*poema vencedor do 1º lugar do concurso realizado pela UFPI, 1984)

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor de alguns livros, dentre eles: “Morro do Gritador, filho da Ibipaba: brisa, cruviana & terremoto”.

Below Media