A tarifa adicional de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre o Brasil deverá atingir cerca de 3.000 produtos exportados pelo País, segundo estimativa feita pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), considerando as isenções anunciadas pela gestão Trump, na madrugada desta quinta-feira, 16.
A lista com 2.126 produtos brasileiros que não serão taxados foi recebida como uma surpresa positiva pelo mercado, segundo analistas, já que, inicialmente, a previsão era menor. Por outro lado, alguns setores ficaram ainda mais expostos aos efeitos da taxação, enquanto outros estão salvaguardados.
Além de carne bovina, café, laranja e suco de laranja, que já constavam em lista divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em junho, itens como mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e de aço, peixes e frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos foram incluídos na lista de exceções.
Segundo o anúncio do governo Trump, as isenções levam em conta:
- “matérias-primas que, se sujeitas às tarifas adicionais propostas, poderiam levar à indisponibilidade de oferta doméstica; produtos que poderiam causar perturbações em toda a economia caso fossem sujeitos a tarifas adicionais; certos produtos que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidades suficientes nos Estados Unidos nem obtidos de outras fontes; e artigos para os quais as tarifas adicionais poderiam não contribuir substancialmente para a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil considerados passíveis de ação”.
Com isso, o impacto maior deve recair sobre a exportação de etanol e produtos manufaturados em geral, como calçados e têxteis.
“A lista de exceções reduz o impacto sobre segmentos relevantes da pauta exportadora brasileira e preserva parte importante da capacidade de geração de divisas do país. Os setores mais expostos continuam sendo aqueles com elevada dependência do mercado americano e menor flexibilidade para redirecionar suas exportações, como siderurgia, açúcar, madeira, máquinas e equipamentos, etanol, ferro-gusa e tabaco”, avalia Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset.
Para o analista, a taxação pode fazer com que empresas desses setores precisem reduzir margens e competitividade, exigir renegociação de contratos e procurar a abertura de novos mercados. Em caso de perda de mercado, uma consequência futura pode ser o aumento do desemprego nessas áreas.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), desde que Trump começou a implementar tarifas contra o Brasil, as vendas de bens industriais para os EUA caíram 8,7%, especialmente em produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço.
Ainda assim, a CNI reforça que, mesmo neste período, os EUA permaneceram como principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira. No geral, as exportações para o mercado norte-americano caíram 13% no período.
Para a Amcham, a nova tarifa “coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado norte-americano”. Mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio seriam afetadas pela medida.
A entidade considera que as sobretaxas podem aumentar a dependência de empresas dos EUA de fornecedores asiáticos e ampliar o déficit comercial com países da região.
Da mesma forma, para o economista Vitor Kayo, da Nomad, a medida também empurraria o Brasil ainda mais para o comércio com a China, que já é o principal destino das exportações do País.
“A avaliação geral é que o impacto tende a ser menor do que no primeiro tarifaço, aplicado há um ano. Um dos motivos é que o Brasil não depende tanto assim dos EUA. O país exporta muito mais para a China, o que limita o efeito sobre a economia como um todo. Naquela ocasião, o Brasil sentiu uma leve perda de ritmo de crescimento no semestre seguinte, mas o efeito desta vez deve ser ainda mais contido”, avalia.




