Teresina • quinta-feira, 28 de maio de 2026
Cultura

O município de Pedro II e a religiosidade

Por Redação 28 de maio de 2026 3 min de leitura

O município de Pedro II, 200 km desde Teresina, é tido popularmente como um dos municípios mais religiosos do Estado do Piauí. Os festejos da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, entre os dias 28 de novembro e 9 de dezembro só recentemente perdeu em número de turistas para outro evento anual de grande peso, o Festival de Inverno de Pedro II, em sexta edição em 2009.

Cada bairro da cidade, cada comunidade interiorana possui seu santo padroeiro cujos festejos são comemorados todos os anos, sendo que, em alguns casos alguns desses festejos tem abrangência regional, congregando algumas localidades em torno daquela de maior destaque e que, geralmente, é onde reside um líder político da região.

A pesquisa aponta para o fato de que tal líder político (ou seus sucessores) possuía alguma ligação com algum coronel no passado. Isso faz pensar que resquícios do coronelismo fazem-se presentes no modus operandi da política local. Mas mesmo antes desse sistema haver sido implantado, a regra política no município não teria sido muito diferente da do resto do Estado, pois

Na ausência de autoridade definida, em virtude do sistema de substituição dos membros do órgão governamental, os fazendeiros, continuadores da tradição dos predecessores, avaros e cúpidos, dão surgimento às primeiras oligarquias e encarnam um “novo poder”, arrogam-se direitos, prerrogativas e privilégios ilegítimos.

A luta pelo poder e os modos de exercer-se influência sobre ele levam a esses extremos (BRANDÃO, 1995, p.24). (Aspas internas no original).

O catolicismo popular do município tem na figura de Santa Maria Alves, sua maior representante, havendo, porém, outros santos populares (não canonizados) prefigurados em almas milagrosas, como se costuma chamar a pessoas que tiveram morte trágica e que, agora, perdoados seus pecados, ajudam os viventes mediante a prática de promessas. Pelo menos uma mestranda e um doutorando se debruçam sobre esse assunto no momento.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que tais manifestações do catolicismo popular ocorriam, o número de rezadeiras e benzedeiras no município, por décadas, foi sempre grande, e mesmo nesses tempos ditos pós-modernos, há ainda no núcleo urbano e na zona rural considerável número de pessoas que mantém tais práticas, geralmente acumulando também o papel do que localmente é denominado de profetas da chuva

Dessa maneira, isso explicaria em boa parte o fato de, até o presente, haver apenas uma matriz fundacional socialmente valorizada que explicaria a formação do povo pedro-segundense, uma matriz de viés europeizante transubstanciada no que chamamos de mito Pereireano, no sentido de Lévi-Strauss.

O cultivo desse mito alimentado por uma elite econômica e política local ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, enclausurada no poder endossado por práticas coronelistas

(Referências: Lévi-Strausss e Prof. Wilson de Andrade Brandão /Foto: do autor ‘Capela de Santa Maria Alves’).

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Escreveu, dentre outros livros, ‘Lendas de Pedro II”. Recentemente lançou o livro “Morro do Gritador, filho da Ibiapaba: brisa, cruviana & terremotos”, que estará à venda durante o Festival de Inverno de Pedro II (de 04 a 07 de junho, 2026) no stand da APLA-Academia Pedro-segundense de Letras e Artes, no Mirante do Gritador, no Rancho do Dino e no Balneários das Serras, além de outros pontos). Escreve às quintas para o Portal News Piauí

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