O Centro-Sul do Piauí, região tradicionalmente conhecida por iniciar o período chuvoso mais cedo do que outras partes do estado, enfrenta neste ano um atraso significativo das precipitações. A estiagem prolongada tem gerado apreensão entre produtores rurais e especialistas em clima, que alertam para possíveis impactos no rebanho, na agricultura de sequeiro e nas economias locais dependentes do campo.
Região espera chuvas desde outubro, mas período úmido não começou
Normalmente, as primeiras chuvas começam a cair entre o fim de outubro e o início de novembro. Em 2024/2025, contudo, as nuvens passaram sem deixar marcas em grande parte da região.
No vale do rio Esfolado — que abrange comunidades agrícolas dos municípios de Bertolínia, Sebastião Leal e Canavieira — moradores relatam que, até a segunda quinzena de novembro, não caiu sequer um pingo d’água em diversas localidades. A paisagem, onde nesta época do ano já deveria despontar vegetação verde, mantém-se acinzentada e ressequida.
O lavrador Josias Freitas, morador no lugar Malhada de Pedras, zona rural do município de Sebastião Leal, resume o sentimento geral: “Todo dia a gente olha para o céu, mas só vê calor e poeira. A gente fica sem saber o que fazer, porque o campo não espera”.
Baixa produção de fava de bolota agrava a alimentação do rebanho
A estiagem encontra a pecuária regional em um momento especialmente delicado. A produção de fava de bolota, cultura nativa usada na alimentação do gado durante a transição entre períodos seco e chuvoso, foi abaixo do esperado este ano.
A falta de pastagem obriga a compra de ração, farelo e suplementos minerais, elevando custos e pressionando pequenas e médias propriedades, que já operam com margens apertadas.
Produtores relatam peso baixo do gado e dificuldades com suplementação
O fazendeiro Abdon Rodrigues da Silva, ex-presidente do Sindicato Rural de Bertolínia por mais de 20 anos, descreve a situação como “uma das mais preocupantes em décadas”. Ele conta que em sua fazenda Dermária houve apenas duas chuvas fracas, insuficientes para molhar o solo:
“Quando a chuva vem fraca desse jeito, só levanta cheiro de terra. Não muda nada no pasto. E nas outras propriedades da família, como Malhada de Pedras, a situação é pior ainda. O gado está magro. Desde o começo de novembro estamos comprando ração. Isso quase nunca acontece.”
Cadeias produtivas locais sentem reflexos imediatos
A estiagem prolongada não afeta apenas o produtor individual. Em municípios como Bertolínia e Sebastião Leal, boa parte da economia depende do movimento agrícola e pecuário.
Com o atraso das chuvas: comerciantes relatam queda na venda de insumos para plantio; vendedores de ração registram aumento da procura; caminhões de transporte de gado circulam menos; e trabalhadores temporários estão sendo contratados mais tarde.
A incerteza também atinge produtores de culturas de ciclo curto, como milho e feijão, que dependem de previsões estáveis para planejar o plantio. Quanto maior o atraso, maior o risco de perda total da lavoura.
População rural tenta manter otimismo, mas incerteza domina o cenário
Apesar das dificuldades, muitos produtores ainda mantêm certa esperança de que as chuvas se regularizem nas próximas semanas, amenizando os impactos no rebanho e permitindo o início tardio da safra.
“O sertanejo sempre espera a chuva. Enquanto não cair, a gente não desiste”, afirma Abdon Rodrigues.
Ainda assim, o clima é de alerta. A persistência da estiagem pode provocar prejuízos significativos em 2025, tanto para a pecuária quanto para a agricultura de subsistência, que sustenta milhares de famílias na região.
Por enquanto, resta aos agricultores acompanhar as previsões e aguardar que o “inverno” chegue — nem que seja tarde — para dar início à recuperação do campo e devolver algum fôlego às pequenas e grandes propriedades do Centro-Sul piauiense.






