InícioCulturaAfinal, para que serve a gramática?

Afinal, para que serve a gramática?

A gramática tradicional tem sido alvo de críticas nas últimas décadas. Boa parte dessas críticas mira o fato de que ela, a ‘gramática tradicional’, vive mais de exceções do que propriamente de ‘regras’ que só servem para concursos e provas. Há um quê de verdadeiro nisso, mas há também certa cegueira.

 

Entenda-se ‘gramática tradicional’ aquela dos grossos volumes que infestavam (com a chegada da internet, sabe-se lá…) as prateleiras de Juízes, desembargadores, ministros do STF e de professores de português.

Voltemos à gramática. No sentido mais profundo do termo ‘gramática’, como conjunto de normas,  está presente em quase tudo (senão em tudo) desse mundo e dos outros. Há uma gramática da botânica, da geografia, da física, da matemática…. Há uma gramática futebolística, uma gramática das artes e das artes marciais, outra dos pássaros, uma gramática dos bebês, outra ainda da geologia, doa apaixonados, e por aí vai. Nessa concepção ‘gramática’ é um conjunto de signos articulados segundo certas regras e que comunicam coisas (ideias e significados).

Acontece que até bem pouco tempo atrás só se valorizava a ‘gramática padrão’, ensinada à base de decoreba pelas instituições escolares. A ‘gramática do povo’, além de ser ignorada pela classe dominante, era ridicularizada, motivo de piadas. Ainda hoje há pessoas que pensam que analfabetos não possuem gramática.

A ‘gramática tradicional’ (também apelidada de ‘gramática padrão’) usada pela classe (intelectualmente) dominante, assim como suas roupas, seus carros, suas mansões, seu dinheiro, etc. tem como função diferenciá-la (a ela classe) das demais. Imperioso lembrar que vivemos em uma sociedade capitalista. Nesse sentido, gramática é símbolo de poder.

Mas como se cogitou acima, todos os humanos e mesmo os demais seres (animais, vegetais e minerais), sem exceção, têm, de alguma forma, sua gramática e dela lançam mão.

Em última análise, a(s) gramática(s) serve(m) para que possamos nos comunicar. Evidentemente que uma criança, um adolescente, um jovem, um adulto e um idoso, embora falem a mesma língua, utilizam-se de ‘gramáticas diversas’ exatamente porque estão em fases diversas de suas vidas, física e mentalmente.

Como professor de português faço uso de todas as minhas gramáticas, dependendo de com quem estou conversando, mas jamais diria que de nada vale aprender a gramática ensinada na escola. Pelo contrário. Todas as pessoas têm direito a ela, uma vez que é através dela que boa parcela dos que viemos das classes que não a burguesa jamais conseguiríamos ascender social e profissionalmente.

Como o mundo é complexo e diverso, há espaço e momento para fazermos uso das diversas gramáticas que nos habitam.

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor de, entre outros livros, “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. Pertence às academias APLA e ALVAL, é membro do IHGPI (Instituto Histórico e Geográfico do Piauí), e membro fundador do COLETIVO P2 de Prosa e Poesia. Escreve às quintas-feiras para esta coluna.

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