Teresina • quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Cultura

Nada, não, seu padre

Por Redação 5 de novembro de 2026 3 min de leitura
Foto: Reprodução

Pois Pedro Sabiá consertou bonzinho o sino e quando padre Mário foi perguntar quanto custava o serviço, quem foi que disse que o homem dissesse. Fez foi abrir a boca e disse mesmo assim: nada, não, seu padre. Fiz com gosto para a santinha. Faz de conta que foi um adjutório para o festejo dela. E pediu licença para sair.

Quando passava de volta para a funilaria, jogou os olhos para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e se admirou das duas palmeiras laterais. Como estavam viçosas. O vento dava nelas e elas respondiam se balançando toda. Pedro Sabiá se lembrou dos tempos de menino pobre. Sim ainda era um homem pobre, mas agora não brincava mais. Menino, ele fazia das suas.

Uma vez entendeu de subir numa das palmeirinhas instigado pelos meninos. Tudo peça boa, cada qual o mais traquinas. Pois o desafiaram a subir na palmeirinha e lá estava ele agora, com um pedaço de corda na mão, com a qual havia contornado o tronco da palmeira e, segurando uma das pontas com cada uma das mãos principiava a subir.

Tinha hora que achava que não ia conseguir, suava muito e agora os braços começavam a faltar. Via a hora desabar lá de cima, pois já estava na metade do caminho. Aí se apegou com a santa. Nossa Senhora da Conceição, fazei com que eu chegue lá em cima, porque tô vendo a hora de me esborrachar lá no chão. Dai-me forças, minha Nossa Senhora. Quando chegou lá em cima que tocou com a cabeça em um coco, a meninada lá embaixo desferiu a maior gritaria.

Era tanta algazarra que terminou por aparecer na porta da Casa Paroquial padre Amnésio Urtiga. Os zoadentos meteram o pé na carreira quando deram pelo padre e ele, Pedro Sabiá, agora estava no mato, ou melhor, no olho do pé de coco e sem cachorro. O que salvou a pátria era que padre Amnésio era gente boa. Com as duas mãos na cintura olhava para cima e dizia alguma coisa que ele não entendia bem porque o barulhos das palhas de coco era enorme.

O homenzinho lá embaixo agora gesticulava para ele descer, Pedro Sabiá podia ver pelo espaço entre seu braço e axila o servo de Deus chamá-lo para descer. Coisa que ele começou a fazer. Quando finalmente tocou com os pés no chão, padre Amnésio passou-lhe uma carraspana, com o dedo em riste. Pedro Sabiá engolia seco e a molecada num magote espiava tudo lá debaixo do pé de manga da Praça da Matriz.

Pois sim. Agora retribuía à santinha o favor que fizera por não deixá-lo cair naquele dia de cima daquela palmeira enorme. Fez o sinal da cruz quando passou na frente da porta principal da igreja e depois terminou de percorrer o adro, descendo os degraus, atravessando a praça até sumir por detrás da pensão de dona Dedita Cavalcante.

(Ilustração:  Batista)

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta, escritor, artista plástico e livreiro. É o autor, dentre outros livros, de “Lendas de Pedro II”. Escreve sempre às quintas-feiras para o Portal News Piauí.

 

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