O escritor baiano Jorge Amado teria dito que os lugares são construídos pelas pessoas do povo. Só depois, continua Jorge Amado, é que os poderosos mostram os dentes, rugem e se apropriam deles. A partir daí vão pondo o nome dos familiares em tudo o que é de logradouro público: praças, chafarizes, hospitais, ruas, cemitérios e Deus sabe mais o resto.
Não seria diferente nos municípios piauienses. Parece justo que de início se diga que as práticas coronelistas que caracterizaram desde o início a dinâmica da maioria desses municípios, de fato, determinaram a vida política, alijando economicamente e socialmente parte considerável, da população.
Dentre os grupos sociais marginalmente incluídos destacam-se os praticantes de religiões de matrizes africanas, em especial a Umbanda (mas também o Candomblé).
Narrar a saga de umbandistas (e de praticantes de Candomblé), em muitos desses municípios, procurando compreender seu papel sociorreligioso e, num sentido mais amplo, cultural, na sociedade piauiense ao longo das últimas cinco, seis décadas é assunto ainda por tratar.
Além disso, é oportuno apresentar as dificuldades de toda ordem (econômica, social, cultural, racial) que os primeiros umbandistas tiveram que enfrentar num Piauí elitista, preconceituoso e religiosamente (mas não só) opressivo.
Pode-se mostrar que alguns dos desafios enfrentados por estas pessoas que adotaram como religião a Umbanda e o Candomblé, embora lidem com toda naturalidade com o cristianismo segundo o que se costuma denominar de sincretismo religioso, ainda sofrem forte preconceito, de fato.
Institucionalmente, as religiões de matriz africana no estado do Piaí de Pedro II, têm todas as garantias da Lei. Porém a obrigatoriedade do ensino das culturas afrodescendentes e indígenas nas redes públicas de educação deixam muito a desejar apesar da vigência da Leis 10.639/03 e 11.645/2 “que tornam obrigatório o ensino da História e cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar com ênfase nas disciplinas de História, Arte e Literatura, objetivando a educação para as relações étnico-raciais”. (Continua…).
Desenho: Ernâni Getirana
ERNÂNI GETIRANA (@ernânigetirana) é professor, poeta, escritor e artista plástico. Recentemente lançou durante a 24ª edição do SALIPI o livro “Morro do Gritador, filho da Ibiapaba: brisa, cruviana & terremotos”. Escreve ás quintas-feiras para este Portal.




