A política migratória de Donald Trump, centrada na detenção e deportação de imigrantes, impactou a vida de ao menos 205 mil crianças nos Estados Unidos, que tiveram ao menos um de seus pais presos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) desde janeiro de 2025. Desse total, estima-se que 145 mil são cidadãs americanas.
O cálculo está em relatório elaborado pelo think tank Brookings, a partir de dados demográficos de imigrantes detidos e projeções estatísticas, diante da ausência de informações completas por parte do governo.
Em cerca de 22 mil casos, todas as figuras parentais que viviam com a criança foram afastadas simultaneamente, deixando esses menores sem nenhum responsável em casa, aponta a organização.
Do total de crianças com pais detidos pela polícia migratória americana, 72,6% têm menos de 12 anos de idade, segundo os cálculos da organização. Mais da metade dessas famílias são de origem mexicana. Em seguida, estão famílias da Guatemala (15%), Honduras (10,7%) e outros países latino-americanos. Apenas 2% são da Ásia.
Apesar da dimensão do fenômeno, não há registros confiáveis sobre quantos detidos têm filhos no país nem sobre o destino dessas crianças após as prisões.
Separações frequentes e prolongadas
A escala das detenções ajuda a explicar o alcance do problema. Atualmente, cerca de 60 mil pessoas estão sob custódia migratória, e aproximadamente 400 mil já passaram por centros de detenção após serem presas dentro do território americano.
Longe de serem episódios pontuais, as separações tendem a se prolongar. Um estudo da organização ProPublica mostrou que, entre mães de crianças cidadãs detidas nos primeiros meses do governo, 60% já haviam sido deportadas após sete meses, enquanto 17% continuavam presas.
Isso indica que, para grande parte das crianças, a ruptura familiar não é temporária e pode, inclusive, se tornar permanente.
Crianças fora do radar do Estado
O destino dessas crianças permanece, em grande medida, desconhecido. Embora algumas acompanhem os pais deportados para seus países de origem, a maioria permanece nos Estados Unidos, geralmente sob cuidados informais.
Sem acompanhamento sistemático, muitos passam a viver com parentes, amigos ou conhecidos. Em outros casos, são deixados sob arranjos precários que não chegam ao conhecimento das autoridades.
Estimativas sugerem que, entre os cerca de 22 mil casos em que nenhum dos pais permanece no domicílio, apenas 5% — cerca de 1.000 crianças — tiveram algum contato com o sistema oficial de proteção infantil.
Os especialistas envolvidos na análise apontam que há uma combinação de fatores por trás dessa invisibilidade: famílias evitam recorrer a serviços públicos por medo de novas ações migratórias, enquanto órgãos de proteção tendem a intervir apenas em situações extremas, como negligência ou abandono evidente.
Falta de dados agrava cenário
A ausência de informações oficiais consistentes compromete a dimensão real do problema. Embora o Departamento de Segurança Interna (DHS) afirme ter registrado pouco mais de 18 mil pais com filhos cidadãos em centros de detenção em 2025, o número é considerado fortemente subestimado.
Na prática, agentes nem sempre perguntam sobre filhos no momento da detenção, e muitos imigrantes evitam fornecer esse tipo de informação.
Diante dessas lacunas, análises independentes indicam que cerca de 20% dos detidos têm filhos cidadãos vivendo com eles, proporção que fundamenta o elevado número estimado de crianças afetadas.
As estatísticas indicam que esse contingente de crianças desamparadas pode crescer nos próximos meses. Estima-se que cerca de 13 milhões de adultos vivem nos EUA sem status migratório definido ou com proteção parcial. Essas famílias incluem mais de 4,6 milhões de crianças cidadãs americanas que convivem com pelo menos um dos pais em risco de deportação. Em um cenário mais extremo, cerca de 2,5 milhões podem vir a perder todos os responsáveis presentes em casa.
Pressão por respostas
Para os autores do estudo, o mais preocupante é a ausência de uma política pública estruturada para lidar com essas crianças. O ICE não tem como prioridade garantir o destino dos filhos de detidos, e intervenções oficiais ocorrem apenas em situações emergenciais.
Diante disso, cresce a pressão para que o governo passe a registrar e divulgar dados mais precisos sobre separações familiares e crie mecanismos de proteção.
“À medida que se expande a fiscalização imigratória, garantir que as crianças afetadas tenham acesso a apoios e proteções básicos deve ser compreendido não como algo opcional, mas como uma responsabilidade governamental necessária, vinculada às consequências previsíveis da separação e do deslocamento familiar. Quando detemos ou deportamos os pais de uma criança, a nação tem a clara obrigação de reconhecer, levar em consideração e salvaguardar o bem-estar dessa criança”, defendem os autores da análise.




