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A primeira vez que soube do Ytiwaua

Há um riozinho no Japão que deve ter por aí coisa de apenas uns três quilômetros de extensão. Se tiver mais é coisa pouca, que nem cabe pôr aqui nessa história. Chama-se ‘Ytiwaua’, e que deve significar ‘rio pequeno’, ‘rio miúdo’. Pelo menos é o que eu acho.

 

Porque as outras possibilidades de tradução seriam: ‘rio que desce das montanhas’, ou ‘rio que corta um arrozal’, ou, ainda, ‘rio para se ver à tarde pela TV sentado no sofá da sala de estar’. Essa última tradução é por minha conta e risco. E olha que eu me enfiei foi com força nos significados da palavra ‘Ytiwaua’.

 

De qualquer modo esse foi meu primeiro e único encontro com o riozinho: ele emoldurado pela tela cintilante do aparelho de televisão no que, agora penso ter sido, um documentário da Nat Geo. Se bem que ultimamente o fato de que tudo não passou de um sonho, tem visitado fortuitamente minha mente.

 

Mas independentemente de ser o nome de um rio, ou até se esse rio existir de fato, pessoalmente acho a palavra Ytiwaua muito bonita, mas muito bonita mesmo.

 

Quando eu a pronuncio fico com medo de não poder mais parar de pronunciá-la e de ficar eternamente dizendo: Ytiwaua, Ytiwaua, Ytiwaua, Ytiwaua, Ytiwaua, Ytiwaua, Y-t-i-w-a-u-a até que algum japonês tão maluco como eu me ouvisse do outro lado do mundo, através das correntes de ar que bailam pela atmosfera azulada do planeta e me gritasse de volta: れ [Damare] (cale a boca!).

 

Talvez que um dia algum pássaro encantado possa levar a palavra Ytiwaua escrita num pedaço de papel de arroz no bico e o despeje sobre o Japão.

 

***

 

João, um amigo mais velho três anos do que eu e tão avoado como eu, é quem fica dizendo que eles existem, os tais pássaros encantados. E que ele mesmo já tinha levado uns cocorotes do pai para que ele deixasse dessas besteiras, mas ele não deixa não.

 

Quando a gente tem 16 anos a luta entre a realidade e o sonho é uma questão de vida ou morte da qual a realidade sai seriamente danificada. Mas não é esse o caso desse meu amigo. Nem o meu. Pelo menos eu acho. Embora a gente não deixe de sonhar.  

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  1. PS. Desenho e texto: Ernâni Getirana

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor, dentre outros livros, de “Lendas de Pedro II”. Escreve às quintas-feiras para o Portal News Piauí.

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