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Transumanismo, o livro de Marcondes Araújo

O livro “Transumanismo: Discussões sobre eugenia liberal e dignidade da vida humana”, de Marcondes Gomes de Araújo, é instigante, para começo de história. Bem escrito tecnicamente, contudo, mantém um frescor de conversa ao pé da orelha com os leitores, algo raro para uma tese.

 

Marcondes Araújo, tem sua origem familiar em Pedro II, PI, mas há décadas reside em Altos, PI. Casado, é advogado e pertence à Academia de Letras e Línguas Nativas Altoense (ALLMA) e é também diretor de colégio. Organizou a coletânea “Farinhada Altoense” (ISBN: 9786500648416), cuja apresentação tive o prazer de fazer a convite dele.

Mas o que é transumanismo? “[…] é um movimento filosófico e cultural que defende o uso de tecnologias avançadas (como engenharia genética, IA, nanotecnologia) para aprimorar fundamentalmente a condição humana, superando limitações biológicas como envelhecimento, doenças e até a morte, visando a capacidades físicas, intelectuais e psicológicas superiores, criando um futuro ‘pós-humano’”. (W.P.).

Em seu livro o autor nos comunica que, no passado, abraçou os estudos de filosofia e esperava que os mesmos o levassem a descobertas significativas desde os mitos até à racionalidade. Já sinalizando, pois, para preocupações de significativa monta sobre tudo o que é ‘demasiado humano’, por assim dizer.

No presente livro, embora alicerçado em Jügen Habermas, o autor aponta, para o fato de que está cada vez mais difícil a filiação a qualquer das correntes de pensamento quando o assunto transumanismo está na pauta.

Isso por que a complexidade do que se convencionou chamar de ‘humano’ atingiu uma escala alpina com a inserção da tecnologia nos campos da computação, da genética, etc., a ponto de o Direito ter que redimensionar sua própria abrangência de ação quase que de forma contínua.

O autor passa em revista as mudanças sociais/culturais sofridas por boa parte da humanidade desde ‘uma fase religiosa’ à laicidade, o que contribuiu para o surgimento de uma maior liberdade de pensamento, pelo menos no Ocidente. Assim, a Modernidade ocuparia o espaço anteriormente ocupado pela religião (mas nem tanto assim).

Analisando as teses de alguns filósofos, o autor nos esclarece que a religião atualmente parece haver recuperado, em boa medida, parte de seu ‘papel perdido’, isto é, nos deparamos com uma espécie de ‘ressacralização satisfatória’ do humano.

Ao tentar amarrar os fios puxados ao longo de seu texto, Marcondes chama nossa atenção para o fato de termos cuidado e estarmos alertas à manipulação inescrupulosa das potencialidades humanas que visem a fins não humanamente/humanitariamente morais.

Ele nos lembra dos perigos da eugenia. “A eugenia é comumente associada ao programa de “higiene racial” nazista, que começou em 1933 e terminou em maio de 1945, com a derrota da Alemanha no final da II Guerra Mundial.  No entanto, a ideia de “melhorar” os seres humanos através de seleção de suas características – algo que embute um sério problema bioético, capaz de aumentar discriminações de várias ordens – vem da Grécia antiga, tendo retornado às discussões no final do século XIX” (*).

A questão, como ele aponta, contudo, é profunda e requer diálogo, estudo, vontade de compartilhar ideias eticamente aceitáveis. Afinal, ao nascer, não temos escolhas. Mas, e se já escolheram tudo por nós antes do nascimento?

Finalmente, o autor chama atenção para algo tremendamente importante: “[…] é pertinente que se busque sensibilizar a sociedade sobre os ricos decorrentes da utilização de experimentos com embriões humanos, máxime quanto as técnicas de aperfeiçoamento de capacidades e habilidades e à transposição de caracteres humanos para outras espécies, sem o devido controle normativo do estado”.

O livro de Marcondes Araújo passou pelo processo de revisão por pares dentro das regras de Qualis Livros da CAPES

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(*) Retirei este conceito de CREMESP – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

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Livro: ‘Transumanismo: discussão sobre eugenia liberal e dignidade da vida humana’, (2025, 184p).

Editora: Diálogo Freireano, Veranópolis, RS.

Editor Chefe: Ivanio Dickmann

Supervisão: Maria Aparecida Nilson

ISBN: 978-65-5203-247-8

Capa: Gabriel Gresele

Diagramação: Gislaine Telles

 

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É o autor de “Lendas de Pedro II”, dentre outros livros. Escreve para o Portal News Piauí às quintas-feiras.

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