Nunca haveria a hora marcada, ou a perspectiva do reencontro na frescura do ambiente. Mas acontecia de nos alegrarmos na contatação da nossa presença, quando ríamos e comentávamos sobre as coisas da nossa afeição: poesias sublimes, crônicas inteligente, humor perfeito, palavras, gramática e os pratos certos das lojas da Praça.
Graça Vilhena…
Interrompia seu almoço solitário sempre que a encontrava. Não por mim. Era ela quem parava de comer para comentar os assuntos aprisionados na sua sensibilidade. Ameacei algumas vezes de me retirar, mas ela queria era conversar. E a comida esfiava, como fria ficavam as cervejas que decoravam meus copos.
Aprendi com minha amiga, sem que ela soubesse, muito da Literatura. Muita sobre sua família, sua avó Neném Vilhena, de valor humanitário, de valor poético, de valor feminino… Coisas que com Paulo, seu irmão e dos meus melhores amigos, nunca consegui extrair. E Graça, naturalmente, me falava.
Havia alguns meses ela me falou da pretensão de se candidatar a uma cadeira da Academia de Letras. Disse a ela, com sinceridade, que ela deveria ser era convidada.
Nada de disputar eleição. Mas isso jamais acontecerá, nem com uns, nem com “outros”. Então, dei a ela algumas “dicas” sobre o processo e os procedimentos, porque essa “ilusão” já fez parte dos meus desencantados planos. E recebi orientações sobre como proceder, o que repassei à minha amiga, que dias depois também se tornou mais uma desistente daquele sodalício.

Depois desse tempo não mais nos encontramos. Nem nos almoços que ela fazia aos domingos, no Riverside Shopping, nem nas prateleiras do whatsapp, nem nas ligações telefônicas, nem nos facebooks da vida. Até que um dia ela me falou dos problemas de saúde. Adoecera, e a reclusão para curar-se foi imprescindível. Compreendi, embora insistindo algumas vezes em mensagens pelo celular, sem muito sucesso.
Paulinho, seu irmão, me fez ciente do triste desenlace da Gracinha. Fiquei pra baixo uns dois dias, até ganhar a certeza de que para onde quer que tenha ido, estará melhor do que nós, aqui.
Mas, no dia exato da missa que marcou o sétimo dia da sua partida, me chega a notícia do falecimento do William Soares. O pensamento imediato foi de que alguém anda precisando de bons poetas no mundo invisível. Porque em uma semana levaram Graça Vilhena, e na outra o William…!
Companheiro de goles e noites sem fim, William era um menino em corpo de ancião. Um poeta na melhor expressão da palavra. Sem maldade, sem rancor, sem cálculos frios e apetite para a falsidade, era a melhor expressão da doçura humana. Discreto, prudente, ouvinte e amigo, soube viver a poesia como nenhum outro que conheci.
Margeava a inocência, tangendo para longe de si os recalques dos seus limites. Era humilde e humilde se manteve no seu universo enorme de amizades e convivências.

Vivemos bons momentos, numa amizade que se acomodava no respeito mútuo, na harmonia dos bons amigos, no silêncio diante das discordâncias. Trouxe para mim o sentimento de que nem tudo está perdido nesse mundo espinhoso e perigoso, descontrolado. E quando me entregou este sentimento, o fez com sua maneira serena de dizer as coisas, quase infantil, com seu olhar de esperança, com seu silêncio que tanto dizia… Um poeta, realmente.
Paulo Chaves, 12 de agosto/2025




