O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) suspendeu nesta sexta (4) os pagamentos ao ex-magistrado José Eduardo Franco dos Reis, que passou mais de 40 anos vivendo com sob a identidade falsa de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Ele foi denunciado pelo Ministério Público paulista (MPSP) por uso de documento falso e falsidade ideológica.
A decisão de suspender administrativa os vencimentos ao juiz aposentado foram tomados pelo presidente da Corte, desembargador Fernando Antonio Torres Garcia. O TJ reiterou que “há questão pendente de apreciação no âmbito jurisdicional” e que o processo tramita em segredo de Justiça.
A farsa foi desvendada pelo MP graças a um alerta do Sistema Automatizado de Identificação Biométrica, disparado quando Franco tentou tirar uma segunda via do RG em outubro de 2024. O homem que dizia ser descendentes de lordes ingleses – o que foi negado por autoridades britânicas – havia nascido, na verdade, em Águas da Prata, no interior paulista.
Segundo a denúncia, Franco nasceu na cidade paulista de 7,3 mil pessoas em 17 de março de 1958. Em 19 de setembro de 1980, compareceu a um posto da Polícia Civil para tirar sua identidade como Edward Wickfield. Para isso, apresentou um certificado de reservista, um documento que dizia ser funcionário do Ministério Público do Trabalho, uma carteira de trabalho e um título de eleitor – todos com o nome falso.
“Por razões desconhecidas, José Eduardo Franco Reis criou a figura de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield como uma personalidade diversa, porém, sem abandonar a identidade real, permanecendo com documentação dupla” , escreveu o promotor Maurício Salvadori.
Oito anos depois, em 1988, ingressou no curso de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Se formou e em 1996 foi aprovado para a carreira da magistratura. Aposentou-se em 2018 como titular da 35.ª Vara Cível de São Paulo, no Fórum João Mendes, na Liberdade, região central da capital paulista. Em fevereiro, seu contracheque foi de R$ 166 mil.
Quando de sua aprovação, deu uma entrevista afirmando que havia nascido no Brasil, mas descendia de nobres ingleses. Segundo ele, viveu até os 25 anos na Inglaterra, quando resolveu retornar ao seu País para estudar Direito. Ele também afirmou que seu avô havia sido juiz no Reino Unido e que isso não o ajudou no concurso. “Conheço pessoas com um passado muito tradicional que não passaram.”
“Observa-se que o denunciado, não somente criou uma persona distinta, passando a conduzir sua vida com esses propósitos. Ao revés, de forma flagrantemente ardilosa, por mais de quarenta anos enganou quase a totalidade das instituições públicas, traiu jurisdicionados e, sobretudo, manteve a real identidade operante com a qual também se identifica, potencializando os múltiplos falsos”, afirma a denúncia.