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Kruel, sim, mas sempre ‘com fé, esperança e amor’

A partir de agora o mar de Tutóia, ‘onde Deus fez a morada’, Maranhão, não será mais o mesmo. Nem a Praça Pedro II, em Teresina. Muito menos a Praça Landri Sales (Praça do Liceu) e tantos outros loci desse mundão de Deus. Por um simples e puro fato: a passagem do inquieto, inteligente, verborrágico e persistente Kenard Kruel Fagundes dos Santos.

 

Falecido semana passada (11 de maio de 2023) aos 64 anos de idade, ex-presidente da ABE (Associação Brasileira de Escritores, sessão Piauí), presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Piauí, formado em direito, proprietário de uma pousada em Tutóia, Maranhão, este escritor foi acima de tudo um ‘agitador cultural’ de marca maior.

Sou daqueles que pensam que o modo de ser de alguém enquanto vivo e palmilhando o planeta é que deve ser lembrado. Rita Lee (que também se foi), por exemplo, rechaçava peremptoriamente o status de ‘rainha do rock brasileiro’ e, sobretudo, o de ‘santa Rita das ovelhas negras’. Aghhhh!!!

Pois a imagem que quero manter para mim do Kenard, é a de um guerreiro incansável lutando o tempo todo pela cultura do Piauí, o que quer que isso signifique nos dias que correm. Lutando com a caneta em punho feito a lança de um Dom Quixote (mas jamais quixotesco!) contra os moinhos de vento da ignorância, que, como sabemos, é quilométrica.

Outra faceta apaixonante desse Dom Quixote era a de gozar os amigos. Seu alvo preferido era o amigo de toda a vida, Albert Piauí. Kenard nunca aceitou o fato de Albert ter parado de desenhar. Vivia instigando o ‘morador da Parnaíba’ a sacar da pena e mandar ver. Albert, ele mesmo um enfant terrible na juventude ao lado de Kruel.

O Kenard escritor, aficionado em Torquato Neto, escreveu dois livros sobre o bardo. Escreveu outros tantos e nunca largou as croniquetas nessa enfacebookadura porque passa o mundo. As redes sociais do senhor K. passaram a ser o que outrora fôra o jornal impresso de que ele tanto gostava.

Nos últimos anos era abrir pela manhã o facebook e lá estava o Kenard pelejando contra os males do mundo e a favor da prosa e da poesia. Estava sempre a elogiar todos os que, como ele, houvessem feito de suas vidas um libelo à liberdade. E por falar nessa dama, a liberdade, ele exibia religiosamente a foto de quando havia sido preso nos anos de chumbo. Os amigos o gozavam por isso. Ele nem batia a passarinha. Antes, entrava no bolo e repetia com a inocência crepitante, mas também com o senso de justiça quixoteana:

– COM FÉ, ESPERANÇA E AMOR!
A doença levou-lhe o corpanzil que era sua marca no mundo. Foi definhando aos poucos, mas ‘sem perder a ternura jamais’. Por vezes, posava no hospital com o suporte de soro hospitalar qual um Quixote brandindo sua lança.

Vá em paz, Kenard, que de cruel não tinha nada. Era um meninão largado na largueza da Ilha Kenardiana de Tutóia. Ou, mesmo quando ficava trancafiado na “Caverna Kenardiana’ escrevendo, ou ainda, ‘passando férias’ nas camas dos hospitais, ali estava o jornalista, o escritor, o amante de Teresina, o bonachão (às vezes ácido, senão como é que fica, né?) e plural Kenard Kruel gritando feito uma estrela supernova para nossos tímidos tímpanos:
– COM FÉ, ESPERANÇA E AMOR!

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana). É professor, poeta e escritor. É autor de vários livros, dentre eles “LENDAS DA CIDADE DE PEDRO II” (Livraria Entrelivros, da Dom Severino, Teresina). É acadêmico da APLA e da ALVAL. Em Pedro II é o proprietário, com sua esposa, do espaço cultural TOCA DAS LENDAS. Escreve para esta coluna

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