Traumas, lembranças dolorosas e gratidão por estar vivo. Esses foram alguns dos sentimentos relatados ao g1 pelo Lucas Cassiano, de 27 anos, um dos sobreviventes da tragédia de Capitólio (MG). A queda do paredão rochoso, que matou 10 pessoas e deixou mais de 20 feridos, completa 1 ano neste domingo (8).
“Deus me deu uma segunda chance”, disse o piloto, que dirigia uma das embarcações na época e que ficou ferido. Além de Lucas Cassiano, a reportagem também conversou com a sobrinha de um casal que morreu no acidente e mostra as mudanças vivenciadas no turismo da cidade após mais de 365 dias e medidas de segurança tomadas.
‘Nunca mais voltei no lugar’

“Um ano se passou, mas a dor ainda machuca”. O relato é de Lucas Cassiano, de 27 anos, que sobreviveu após ver de perto todo cenário desolador causado pela tragédia. O jovem era piloto de uma lancha com 12 turistas, que estava na água no momento da queda do paredão. O veículo aquático dele situava-se apenas a 200 metros da embarcação onde todos os ocupantes morreram.
“Foi uma dor muito grande e um desespero para saber se todos estavam bem. Me lembro de ficar mais tranquilo quando soube que ninguém se feriu. Fiquei 5 dias no hospital até passar pela cirurgia que precisava. Coloquei uma placa no maxilar e desde então não posso tomar sol. Nunca mais voltei no lugar da tragédia. Me machuca muito. Até quando passo pela rodovia que tem a região dos cânions evito olhar”, contou.
Em 2022, Lucas Cassiano completava 4 anos que morava e trabalhava como piloto de lancha em Capitólio. Ao g1, ele disse que jamais imaginou tamanha destruição em um lugar que até o acidente só havia lhe proporcionado alegria.
“Perdi um colega de trabalho e amigo, que era o Rodrigo, piloto da lancha atingida. Também perdi a alegria, o entusiasmo e o brilho no olhar. Fiquei mais calado e mais fechado. Acho que é pelo trauma mesmo. Contudo, tenho muita gratidão porque sei que Deus me deu uma segunda chance. Não vou desperdiçar”, completou.
No dia da tragédia, dia 8 de janeiro do ano passado, Lucas Cassiano acordou às 6h30, tomou café e se preparou para mais um dia de trabalho. Conforme o piloto, naquela data, os turistas demoraram mais para aparecer por causa do tempo nublado e de chuvas isoladas.
Animado como sempre, o jovem demostrava descontração e contava tudo para os clientes, que apreciavam as paisagens de Capitólio. O roteiro de sempre incluía uma passagem pela Lagoa Azul, os Cânions, Cascatinhas e Lago de Furnas. No entanto, naquele dia, o passeio foi encerrado por uma intervenção trágica da natureza.
“Parece que alguma coisa fez com que eu olhasse e quando vi algumas pedras caindo dei ré na lancha e comecei uma manobra para posição de saída. Nesse segundo o paredão caiu e fui atingido na cabeça por algumas pedras. Desmaiei e comecei a sangrar muito pelo nariz, ouvidos e bocas. Só me lembro de acordar no hospital”, relembrou.
Ao retomar a consciência, a ficha de Lucas Cassiano caía aos poucos e o desespero tomou conta. Na embarcação dele, apenas ele ficou ferido. “Hoje trabalho como auxiliar de manutenção de hotel em Capitólio mesmo, onde pretendo continuar e construir uma família. Só espero que essa dor e trauma psicológico diminuam”, concluiu.
As perdas

Alessandra Barbosa, de 47 anos, perdeu os tios Sebastião Teixeira da Silva e Marlene Augusta Teixeira da Silva. O casal tinha 64 e 57 anos, respectivamente, e estava na lancha atingida pelo paredão de rochas. Ao todo, 10 pessoas morreram.
Um ano após o ocorrido, a sobrinha e familiares mais próximos ainda não acreditam na tragédia. “Erámos muitos unidos. A minha prima Angelita, que é a filha dos meus tios, estava comigo na minha casa no Natal. Demos muita força e nos fortalecemos juntos. Dói saber que a presença dos meus tios não será mais possível”, disse.
Relembre abaixo as vítimas da tragédia em Capitólio:
- Julio Borges Antunes, 68 anos, natural de Alpinópolis (MG);
- Maycon Douglas de Osti, 24 anos, nascido em Campinas (SP);
- Camila da Silva Machado, 18 anos, nascida em Paulínia (SP);
- Sebastião Teixeira da Silva, 64 anos, natural de Anhumas (SP);
- Marlene Augusta Teixeira da Silva, 57 anos, natural de Itaú de Minas (MG);
- Geovany Teixeira da Silva, 37 anos, natural de Itaú de Minas (MG);
- Geovany Gabriel Oliveira da Silva, 14 anos, natural de Alfenas (MG);
- Thiago Teixeira da Silva Nascimento, 35 anos, nascido em Passos (MG);
- Rodrigo Alves dos Anjos, 40 anos, nascido em Betim (MG). Ele era o piloto da lancha atingida.
- Carmem Pinheiro da Silva, de 43 anos, natural de Cajamar (SP).
A queda do paredão
A queda do paredão ocorreu no dia 8 de janeiro de 2022. Na época, um grupo de 10 turistas, a maioria da mesma família, alugou uma lancha para percorrer a região do Lago de Furna, que é rodeada por pedras rochosas.
Em um momento de descontração, em que rotineiramente as embarcações ficavam paradas para que as pessoas desfrutassem das paisagens, uma das rochas se desprendeu e atingiu a lancha “Jesus”. Alguns turistas que perceberam o que ia ocorrer gritaram, mas o piloto e os passageiros não ouviram.
Investigações
Após a tragédia, a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar possíveis responsáveis pelo ocorrido. Os investigadores concluíram que a queda das pedras ocorreu em razão de evento natural — relacionado com o processo de erosão e outros fatores geológicos, comprometendo a sustentação da rocha.
Ninguém chegou a ser indiciado, mas as autoridades policiais elencaram sugestões para melhoria da segurança de toda a área.
Ações de projeção do turismo na região
A região dos cânions ficou fechada cerca de dois meses para visitação após o ocorrido. Neste período, especialistas mapearam a atividade turística na região e os riscos. Desde então, várias alterações ocorreram. Confira abaixo algumas delas:
- Redução no número de embarcações nos cânions. Antigamente era permitido 40 barcos, atualmente apenas 5 podem estar no local por vez e sem o uso de aparelho sonoro;
- Determinação do uso obrigatório de colete salva-vidas em toda a represa e capacete na região dos cânions e áreas semelhantes.
No mês de fevereiro do ano passado, a Prefeitura lançou o programa “Reviva Capitólio, Viva o Mar de Minas”, com intuito de recuperar e garantir mais segurança ao turismo na região de Furnas. O projeto ainda em execução, engloba um total de 80 ações e investimento de R$ 5 milhões. Já em novembro, um convênio para viabilizar obras de revitalização dos cânions foi assinado.
De acordo com o empresário e dono do restaurante Turno, Luiz Carlos, a tragédia serviu de bússola para nortear o setor melhor. “O que se percebe hoje é um aumento de responsabilidade. Sempre teve, mas agora há uma preocupação maior”.
No sábado (7), o g1 mostrou que a cidade registra 90% de ocupação hoteleira neste início de 2023. “O fato sensibilizou todo mundo e resultou em uma união muito grande dos empresários. Todo mundo fala a mesma língua, todo mundo está preocupado com o atendimento e buscando melhorar cada vez mais”, concluiu Luiz Carlos.
O marinheiro Paulo César Rodrigues também relatou melhorias e disse que tenta superar a tragédia. “Esquecer não vamos nunca. A vida precisa seguir e assim temos feito. Vamos seguindo cada vez mais com segurança e responsabilidade. Graças a Deus aconteceu o que a gente esperava que era a retomada do turismo. Vivemos disso e precisamos que o setor esteja em alta”, complementou.
Fonte: G1