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Deixem as portas abertas aos poetas

O poeta e teórico da literatura, o norte-americano Erza Pound (1885-1972), disse certa vez que “os artistas são as antenas da raça”. Eu, por minha conta e risco, troco temporariamente o termo ‘artistas’ por ‘poetas’ para puxar sardinha para a minha brasa e, com isso, passar a bola, digo, a brasa, para o poeta Climério Ferreira que, cotidianamente, nos brinda não com sardinhas, mas com seus poemas, no face book. Não estou sozinho nessa empreitada, pois Sigmund Freud (1856-1939) já nos alertou que “Nunca cheguei a algum lugar antes sem que por lá já não houvesse passado um poeta”.

 

Não farei aqui, obviamente, nenhuma análise aprofundada da poética climeriana, quero tão somente me ater ao poema “Deixem as portas abertas”, postado pelo poeta regenerense há cerca de três dias e sobre o qual fiz um vídeo e uma colagem (com um Climério desenhado por ser irmão, o compositor e músico Clodo, postado também no Face book pelo próprio Cli.

O poema em questão é uma nesga semiótica de considerável densidade, beleza e reflexão sobre a situação pela qual passa o País nesses últimos dias do ano que se encerra. No limite, pelos quatro últimos anos. Em outras palavras estou a falar sobre um caniço de esperança que volta a tremular em meio ao campo ainda turvado por nuvens de chumbo.

Distanciando-se galacticamente da maneira como a maioria dos poetas ao comporem poemas com ênfase política (no sentido amplo desse termo), o poema de Climério, que não tem nada de panfletário, se por um lado acentua a fragilidade, por outro acena com a irresistível beleza da (nossa) esperança. O poema de Climério lembra-me o ‘A flor e a náusea’, de Drummond. Mas o do nosso piauiense é de uma gostosura ímpar!

Os versos iniciados com verbos no imperativo: /“deixem”/, /“Não tranquem”/, /“Vejam/”, /“Não permitam”/ funcionam como itens que devem ou que não devem ser cumpridos e condicionam suas respectivas ‘consequências factuais’. Assim tem-se pela ordem: /‘porta’/, /‘ventos da pré-chuva’/, /‘roçados risonhos’/, /‘cabeleiras do capim’/ e, finalmente, o salto para o imaterial: /‘sonhos (não) adormeçam ao relento’/.

Como último texto meu nessa coluna no ano de 2022, deixo-vos, prezados leitores, prezadas leitoras, com o poema de Climério. Feliz 2022 e que venha 2023 com muita esperança e os poemas do Climério.

DEIXEM AS PORTAS ABERTAS
(Climério Ferreira)
Não tranquem as portas
Quando sopram os ventos da pré-chuva
Vejam como os roçados então risonhos
E como bailam as cabeleiras do capim
Não tranquem as portas
Não permitam que os sonhos adormeçam ao relento

Ernâni Getirana (@getirana) é professor, poeta e escritor. Autor, dentre outros livros, de “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. Escreve às quintas-feiras nesta coluna.

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