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sexta-feira, abril 4, 2025
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Os livros serão escritos por IA’s

Pode ser que seja mesmo só saudosismo. Na minha idade, essa doença resolve dar o ar de sua graça assim, sem mais nem menos. Mas o que quero mesmo trazer aqui para reflexão desta quinta é uma observação acerca do ‘livro didático’: o excesso de ‘carnavalização’ que parece habitá-lo.

Em minha memória afetiva, um dos livros didáticos que mais marcaram minha vida de estudante foi um de Português da oitava série (antigo ginásio). Era um livro que continha desenhos, fotos em preto e branco; eu nunca havia visto até então (o ano era 1975) livros didáticos com fotos ou coisas do gênero.

Mesmo no início de minha vida de professor (primeiro lustro dos anos 1980), uma de minhas diversões prediletas era mergulhar nos livros didáticos (de inglês, no início e posteriormente de Português) no início de cada ano letivo, quando as editoras enviavam seus representantes às escolas e eles, no afã de terem seus livros escolhidos, adulavam-nos com presentes como agendas, chaveirinhos e outros trecos com o logotipo de suas editoras.

Nessa época os livros já eram bastante coloridos e as fotos tinham boa definição. Pouco depois, no início dos anos 1990, as editoras passaram a incluir CD roms nos encartes dos livros, pois alguns professores já dispunham de computadores pessoais em suas casas. Os livros didáticos dessa época, claro, passaram a ser bem mais coloridos, com fotos, gráficos, desenhos, reproduções de obras de arte, etc.. Além de tudo,podíamos acessar os sites das editoras. Mas é aqui, segundo penso, que o excesso (a carnavalização) começou a prejudicar o primeiro objetivo de um livro didático: ensinar de forma clara, sem infantilização, nem reducionismo, sem muitos gaps.

Atualmente, salvo engano, pelo menos os livros didáticos de Português do Ensino Fundamental Maior aos quais venho tendo acesso a cada início de ano, essa situação (excesso de imagens e gráficos), na minha avaliação vem prejudicando a apresentação do próprio conteúdo. Este se torna disperso a tal ponto que, em alguns casos, sequer nos damos conta de que conteúdo gramatical estão tratando.

Um outro agravante, paralelo a esse, é o fato de que os colégios privados estão adotando livros ‘sem autor’. Explico: os livros vêm no formato de apostila cujo conteúdo é um apanhado possivelmente de ‘livros de outros autores’ (que deixam de receber seus direitos autorais). Na ficha catalográfica desapareceu o ‘nome do autor’. No lugar deste aparece o nome do ‘grupo empresarial’ do do ‘pacote pedagógico’.

Não dou cinco anos para que tenhamos livros didáticos (de todas as disciplinas) escritos por uma dessas Inteligências Artificiais. Nada contra, desde que as IA’s não exagerem nas imagens, gráficos, etc., etc., etc..e assim como autoras.

Ernâni Getirana é professor, poeta e escritor e escreve nesta coluna às quintas-feiras. Seu mais recente livro é “Debaixo da Figueira do Meu Avô’.

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